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Belém

A praia do Restelo é um dos mais antigos ancoradouros de que se tem notícia, pelos relatos feitos por Rui de Pina sobre os acontecimentos de 1295.  O foral de portagem da cidade de Lisboa é anterior a 1337 e confirma o crescimento do porto e da aldeia do Restelo graças à sua intensa actividade comercial.  A partir de 1400, concretamente a 25 de Julho de 1415, inicia-se a expansão marítima com a largada, do porto do Restelo, da expedição que viria a conquistar Ceuta a 21 de Agosto do mesmo ano. A ermida de Santa Maria de Belém, mandada erigir junto à praia do Restelo pelo Infante D. Henrique e doada aos frades da Ordem de Cristo, é confirmada por bula papal em 1459. Além da nova igreja são também instalados um cano, um chafariz e uma ponte que servem todos quantos ali vivem, chegam ou dali partem.  É desta mesma praia-porto do Restelo que, mais tarde, partirão Vasco da Gama para a Índia em 1497 e Pedro Álvares Cabral para o Brasil em 1500. No reinado de D. Manuel I (1495-1521), que sonhava para Lisboa os atributos de uma grande capital de Império, a zona de Belém protagoniza uma dinâmica de desenvolvimento cujo epicentro é o Mosteiro dos Jerónimos iniciado com o século XVI. Ao seu redor foram surgindo a Torre de Belém, as Mercearias do infante D. Luís (filho de D. Manuel) e também as da rainha D. Catarina (mulher de D. João III), bem como alguns palacetes e quintas nobres que transformam o sítio de Belém num local de prestígio.  Acompanhando as glórias, mas também as vicissitudes, da História de Portugal os frades viveram no Mosteiro até à extinção das ordens religiosas, por decreto de 1833. Com a sua saída instalou-se a Real Casa Pia no Mosteiro.

Entre 1852 e 1885, Belém foi um concelho autónomo, constituído pelas freguesias de Ajuda, Benfica, Carnide, Belém, Odivelas e ainda, extra-muros, Alcântara, Santa Isabel e São Sebastião da Pedreira. Constituíam, no seu conjunto, um município independente de Lisboa cujo presidente, de Janeiro de 1854 a Dezembro de 1855, foi Alexandre Herculano. Nos finais do século XIX, instalaram-se no seu perímetro não só equipamentos de lazer -  como o Hipódromo de Belém (depois ponto de partida de Gago Coutinho e Sacadura Cabral), o Teatro Luís de Camões (mais tarde Belém Clube), a Feira de Belém e a Praia de Belém como estância de veraneio (a escolhida pela família real, antes da opção por Cascais), mas também alguns exemplares da então nascente Idade Industrial: a Fábrica Nacional de Cordoaria, a Central Tejo (hoje Museu da Electricidade), a Antiga Fábrica dos Pastéis de Belém, as duas fábricas de gás (Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz e a Gaz de Lisboa). Com tudo isto, mais o Jardim Colonial (actualmente Jardim Agrícola Tropical), o Museu Nacional de Arqueologia e o Museu Nacional dos Coches, mas também com a criação do Clube de Futebol Os Belenenses, já no início do século XX, sediado mais tarde nos terrenos da antiga pedreira de Alcolena (que tanto contribuiu para a edificação do Mosteiro dos Jerónimos), a zona de Belém foi crescendo a bom ritmo.

Com a Exposição do Mundo Português, em 1940, deu-se uma radical alteração do espaço e nada voltou a ser como antes. As demolições no centro histórico de Belém, e o inerente desalojamento da população local, ocorreram no final dos anos 30. Desapareceram quarteirões e ruas inteiras, largos, feiras, jardins, fábricas, inúmeras lojas de pequeno comércio, o Mercado de Belém…  A Exposição, que decorreu de Junho a Dezembro, foi, certamente, um incontornável evento, mas o que dela nos ficou constitui um exíguo legado: o Museu de Arte Popular (actualmente fechado e desactivado), o Padrão dos Descobrimentos (reconstruído na versão definitiva em 1960), alguns pavilhões à beira-rio como, por exemplo, o da Associação Naval e um ou outro resquício escultórico no Jardim Agrícola Tropical.

Na segunda metade do século XX, assistiu-se à construção do Estádio de Futebol Os Belenenses e de alguns bairros nas encostas da Ajuda e do Restelo. A partir dos anos 60, a zona de Belém parece, finalmente, recompor-se do “ciclone centenário”, transformando-se numa zona quase exclusivamente turística apostando, contudo, em equipamentos promotores de cultura. São disso exemplo, além de outros já anteriormente referidos, o Museu de Marinha, o Planetário Calouste Gulbenkian e, sobretudo, o Centro Cultural de Belém que, significativamente, reforçou e modernizou o cariz cultural desta zona ocidental de Lisboa.

Texto adaptado do livro “Belém” de Isabel Corrêa da Silva e Miguel Metelo de Seixas, ed. Junta de Freguesia de Sta. Maria de Belém, 2000

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