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Torre de Belém

Lisboa, na época dos Descobrimentos, viu crescer a sua importância como cidade cosmopolita, tornando-se rapidamente num ponto de referência e encontro de culturas, gentes e conhecimentos. A política naval portuguesa do século XVI e o progresso das viagens marítimas fizeram do porto de Lisboa uma paragem obrigatória para os que navegavam nas rotas do comércio internacional.  Proteger Lisboa e a sua barra tornou-se uma necessidade. Teve o rei D. João II (1455-1495) a iniciativa de traçar um plano inovador e eficaz, que consistia na formação de uma defesa tripartida entre o baluarte de Cascais, a fortaleza de S. Sebastião da Caparica (também chamada Torre Velha), na outra margem do rio, e uma terceira fortaleza que, devido à sua morte, coube a D. Manuel I, seu sucessor, a tarefa de mandar construir. Assim, em homenagem ao santo patrono da cidade de Lisboa - S. Vicente - foi construída a Torre de Belém, no local onde antes estava ancorada a Grande Nau, que cruzava fogo com a fortaleza de S. Sebastião, perpetuando em pedra aquela estrutura de madeira.

Francisco de Arruda foi nomeado Mestre do Baluarte de Belém, após o seu regresso do Norte de África, onde se distinguiu pela edificação de algumas fortalezas. Iniciou a construção, em 1514, sob a orientação do mestre-de-obras do Reino, Diogo de Boitaca, que na altura dirigia os trabalhos do Mosteiro dos Jerónimos. Em 1520 a Torre estava concluída e, um ano mais tarde, era nomeado o seu primeiro alcaide-mor, Gaspar de Paiva. A contribuição prestada por Francisco de Arruda é bem visível na forma arquitectónica e nas suas proporções delicadas, bem como nas influências Islâmicas e Orientais dos elementos decorativos, sendo as cúpulas de gomos que cobrem as guaritas um dos exemplos mais marcantes.Como símbolo do prestígio do Rei, a sua decoração ostenta a simbologia própria do Manuelino - calabres que envolvem o edifício, rematando-o com elegantes nós, esferas armilares, cruzes da Ordem Militar de Cristo e elementos naturalistas. Entre estes últimos sobressai a representação de um rinoceronte, a primeira em pedra que se conhece em toda a Europa, sustentando a base de uma guarita do baluarte virada a Oeste, prova evidente do contacto pioneiro que Portugal manteve com os outros povos além-mar. Ao longo dos anos foram feitas várias intervenções que culminaram com os restauros oitocentistas nas ameadas, no varandim do baluarte, no nicho da Virgem virada para o rio, e no próprio claustrim onde assenta, o qual servia para arejar e ventilar a casamata, sobretudo quando havia fumos de pólvora.
Na estrutura da Torre podemos distinguir duas partes: a torre, propriamente dita, ainda de tradição medieval, mais esguia e com quatro salas abobadadas, e o baluarte, de concepção moderna, mais largo e com a sua casamata onde, a toda a volta, se dispunha a artilharia.
É a este local que o visitante tem acesso directo, quando entra pela porta principal da Torre de Belém.

Com o passar do tempo, e com a construção de novas fortalezas, mais modernas e mais eficazes, a Torre de Belém foi perdendo a sua função de defesa da barra do Tejo. Durante os séculos que se seguiram, desempenhou funções de controlo aduaneiro, de telégrafo e até de farol. Foi também prisão política e viu os seus armazéns transformados em masmorras, a partir da ocupação filipina (1580) e em períodos de instabilidade política.

A Torre de Belém é um referente do Portugal Atlântico e periférico. Embora ancorada no Tejo, e armada durante séculos com artilharia fixa, remete-nos para a viagem, para o querer, para o êxodo, para o nomadismo do Homem Português pelo Mundo repartido, e para o pioneirismo dos nossos seculares contactos de cultura nos vários espaços insulares e continentais. A nudez simbólica das suas pedras remete para as dimensões local, regional e nacional, mas alarga-se à dimensão Universal onde pode caber o Homem uno e diverso. A Torre de Belém afirma o direito à diferença dum povo e duma comunidade alargada de língua comum.  

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